28.6.08

O amor nascia de luzes apagadas, era quase dia e nada importava.

Era o herdeiro de um tesouro muito antigo. A história entranhara-se em mim. Eu era a história da cidade, aquela que todos queriam esquecer pois doía saber. Meus passos desvendavam os mistérios dos abismos insondáveis, meus olhares se lançavam para longe, para onde os olhares se escondem, minhas palavras publicavam verdades ao vento. A Cidade Sem Sol não gosta de ter seus segredos violados. E mesmo quando procurar é o antídoto contra o vazio suposto, a decepção pode ser maior que o cansaço. Do horizonte da Sombra encarnada enxergava-se apenas o vazio suposto de uma ausência de sol. O maior dos astros. E de todos os lados, as ruínas do mundo se entulhavam. A Cidade Sem Sol era, vejam bem, a última fronteira da humanidade partilhada. Mas a cidade conhecia o amor, dessas infelizes coincidências que não se pode chamar de outro nome que não ironia. Desmanchava-me aos pés de Leonora. O amor era uma herança ancestral, eu o havia herdado.
A amor acomete como uma doença faz. Entorpece, fere e acalma. Até a estranha simetria das torres, com a ousadia de dedos humanos apontando para deus, levavam-me a um grau mais incontido de entrega a Leonora. Não havia razão que regrasse, que pusesse termos, que auxiliasse no precário retorno a casa. Era sempre o lar dos sem lares, a cidade sem sol dos solares.

23.6.08

cidade sem sol

No limite seguro da Cidade Sem Sol era onde Isadora morava. Era meu abastecedor. Minha entidade mantedora, minha madre superiora. Ensinava-me de amor mais que todas as outras pessoas juntas. Era simplesmente uma bruxa ou algo assim. Ela me olhava e eu fazia o que quisesse. Seus ritos de amores e drogas. Suas bebidas exóticas, sua dança suntuosa, seus gestos incalculáveis. Seus lábios de labirintos abertos. Era a coisa mais honesta que vivi em toda minha vida. Nem uma palavra prometida. Poucas palavras trocadas. Éramos duas pessoas cientes do fim do mundo próximo, cientes que não seríamos da turma dos escolhidos. Nos divertiríamos até no inferno, talvez. A casa de Isadora pertencia a muitos. O perigo apenas desfila modestamente como uma foto inofensiva em uma cômoda. Perigo era viver. Viver sem passar pela coisas, sem tê-las experimentado. Já era tenebroso todo aquele ritual orgiástico ao deus grana, vender até a capacidade de sonhar, para poder transformar os sonhos em sonhos de consumo. Eles dão preços aos sonhos aqui na Cidade Sem Sol. Nunca vi lugar tão perigoso para viver.

27.5.08

eu pretendi me proteger o tempo todo.
tu fez minha cabeça mas despedaçou meu coração.
quantas vezes te pedi para ter cuidado com o que tinha entre os dedos.
nunca seria uma jóia, seria sempre meu coração.
sempre tive medo de quando percebesse o quanto pensava em você com o meu coração. sempre souberam o quão tolo eu sempre fui.
mas em minha cabeça o certo se configurava, era um processo difícil.
estava muito ocupado tentando continuar a tentar entender o mundo.
tinha de conhecê-lo bem quanto pudesse. tentando continuar vivo pra você.
as recompensas não caberiam em lembranças.
você ia deixando de gostar de mim à medida que eu melhorava.
não podia entender aquilo.
e as mãos sempre dadas começaram a se esfriar com a distância vislumbrada.
sempre soube que tudo que eu fazia era por você.
nada existia para além dos limites seus.

14.5.08

Eu semeio utopias num mundo desesperado
Meu coração tem ficado cheio como um navio náufrago
Desesperados acenos e a incerteza da salvação
Nem mesmo posso supor se as pequenas sementes de utopia
Florescerão e vingarão essa sede de qualquer beleza humana
Epístolas de sentimentos nobres e já gastos de guardados

Eu semeio utopias em um mundo bastante desesperado
Bastante desesperança
Desesperador
Algo em mim parece desaparecer no final da tarde
Preciso me recompor
Preciso me recompor
E todos os aguardados símbolos emergem como bolhas do fundo do mar
Mal piscam e desaparecem
E nem os anos, talvez, poderão dizer se algo contou de importante
Em todas aquelas bóias lançadas aos sobreviventes
É fato conhecido: o navio hora afunda

O semear não pode ser automático. É um erro.
O semear não pode ser automático, uma vez que ser um é, essencialmente,
Negar o outro, automático não pode ser o semear
O tempo passa diferente. Antes mesmo de sabotarmos nossa capacidade de
Ter nosso próprio tempo em troca de um punhado de excessos recém convertidos
À condição de necessidades
E as sementes talvez nunca reivindiquem a condição de herdeiras
Uma vez que a herança pode não ter valor em um mundo que tem preço
E talvez nem um bocado de fé possa fazer bem

Eu semeio utopias num mundo fudido
E talvez seja mesmo culpa minha insistir em continuar
Essa utopia semeada meio em vão é a única coisa que me deixa dormir à noite,
Diante de tantos fantasmas reais que rondam a vida de qualquer um em qualquer
Instante da vida por que exatamente isto caracteriza viver.
Estar exposto à vida. À tudo que tem na vida. Principalmente em um mundo como
O nosso

E na medida em que tudo em volta parece acomodar-se muito bem na realidade
Me preocupo cada vez mais com minha própria condição
Sou forte e teimoso demais pra me entregar, mesmo que seja na iminência da derrota
Eu continuo semeando utopias numa terra desesperada
E enquanto tudo em volta parece ruir
Me esforço para ser um ponto onde se possa segurar
Sei que não desintegrarei
Por que só existe a possibilidade do florescimento
Enquanto se insistir em semear

26.4.08

thiago versus cotidiano

Entrada confusa, parece estar se dirigindo ao lugar errado, é isso que sente. Tem realmente o que ensinar e isso envolve uma crítica pesada demais ao estilo de vida levado por todos. Nem todos, pensa pra si mesmo, gostariam ou estariam preparados para um visão mais larga das coisas. A complexidade aumentou ao um grau tão imenso de aleatoriedade que parece não ter mais sentido nenhum, e o pior, todos estão se deixando ser levados. Sem focos de resistência, sem brigadas vermelhas. O socialismo era ao menos um termômetro, variava a o valor mas tínhamos ali um parâmetro. Eu sinceramente não sei como as coisas chegaram a esse ponto. Não saberia explicar.
A sala o olha. Era dado a esses acessos meio incompreensíveis. Ficava um pouco perdido. Duda chamava de “pequena ausência”, os alunos, de esquisitice mesmo.

-por favor, abram o caderno, livro ou qualquer outra dessas coisas que vocês escrevem, e listem cinco heróis nacionais.
-como assim, professor?
-papel, caneta e você. Você pensa em cinco pessoas dessas importantes que aprendemos os nomes e as datas de mortes ou coisa que o valha quando somos crianças ou nem tão criança assim. Sacou?
-e depois? Tem sempre um depois, né?
-você é mesmo muito esperto, Carlos. Depois, encarecidamente, escrevam o que souberem sobre esses caras e o por quê de vocês considerarem-nos heróis. Beleza? Parece difícil? Vocês estarão fazendo um grande favor pra mim.
-ainda não entendi, professor.

Do fundo da sala, a pequena e zarolha e espertíssima Martha, com suas sardas pulando da face como peixes naquelas pororocas amazônicas, levanta o dedo e uma postura levemente arrogante para uma pequena tão desprivilegiada de arrogância.

-tudo bem, Martha. Na realidade é um trabalho um pouco difícil e ninguém está querendo assumir isso de cara. Mas vamos pensar só um pouco sobre isso juntos. Ok?

Martha balança a cabeça afirmativamente. Dizia que odiava a matéria para manter a fama de má, de rebelde adolescente, mas sabia toda a matéria e era a melhor aluna da classe, o que invariavelmente era negado em suas avaliações. Auto sabotadora das boas.

-bem. Quando fui criança... Engraçado que durante muito tempo na minha infância nunca parei pra pensar que talvez os meus professores também tenham tido infância, mas este é um outro papo. Quando fui criança, tive contato com alguns cavalheiros e nobres senhoras que eram chamados de heróis nacionais. Figuras tão importantes que tiveram seus nomes inseridos nos livros com os quais nos educavam. Alguém pode citar pelo menos um desses cavalheiros que acabo de me referir?
-Tiradentes.
-boa, Otto. E alguém sabe o nome de alguma mulher dessas?
-aquela da lei dos escravos...
-aquela princesa?
-isso mesmo.
-esqueci do nome. Poderia me lembrar, Marcos?
-Princesa Isabel.
-isso. Até aqui alguma dificuldade?

A turma parece consentir. Alguns pegam o caderno, outros levantam o olhar concentrado a algum ponto inexplorado da sala. O professor senta-se e continua o fluxo de pensamento que o trouxera tão confuso à sala de aula. Parece que recompôs o foco. Dar aula dá-lhe foco. Parece algo que ele se sente importante fazendo. Talvez a única coisa.
Martha, do fundo da sala, pergunta qual a explicação pro Brasil não ter nem um herói recente. Atropela a pergunta com a frase: “e teu, professor? Diga o nome de um herói teu?”. O professor explica que aquela resposta dele exigiria uma explicação que ela ainda não estava pronta para entender e se ela se importa em ter apenas um nome quando isso na verdade poderia não significar nada. Ela diz que não se importa. “talvez eu já tenha ouvido falar”. O professor sente-se culpado por tê-la subestimado tão sumariamente e diz:

-Fidel.
-de onde ele é?
-De Cuba. Um barbudão fardado.
-pensei já ter ouvido você falar algo sobre pessoas fardadas e não terem sido comentários bons.
-Martha. Você é muito mais inteligente do que suspeita. Sim. Não costumo fazer muitos comentários elogiosos a pessoas fardadas. Nós chamamos isso que eu acabei de fazer, e só você notou, de incoerência. Quando dizemos uma coisa e nos comportamos ou fazemos de outro modo. Sabe um buraco numa estrada. Essa incoerência tá mais para um buraco negro. Mas como disse antes, pra te explicar isso precisaria de mais tempo do que realmente disponho hoje. Se por acaso você quiser saber algo mais sobre isso, faça uma pequena pesquisa, me entregue, e este será o seu trabalho do bimestre. Eu com certeza adorarei conversar contigo sobre esse tema em outra ocasião se você ainda quiser.
-tá.

Achava incrível a capacidade deles de encerrarem pensamentos em frases tão curtas quanto “tá”. Mas era um desafio que deveria enfrentar sem fazer julgamentos precipitados.

-hoje não tem explicação?

Pergunta o figura da sala, Nilo, muito tamanho em pouca concentração de movimentos. Resultado era que atropelava os outros, falava alto, esbarrava nas cadeiras quando passava, era o mostro do Doutor Frankestein, pobrezinho, monstrualizado pelos próximos. Era também chegado a fazer comentários constrangedores envolvendo mulheres em shorts curtos, sobre violência e algumas outras coisas incategorizáveis.

-não tem... não tem explicação.

15.4.08

sempre começo o que acaba comigo

sempre mudo para aquilo que eu já era. sempre procuro abrigos no meio de uma área deserta. sempre corro perigos dos quais não preciso. sempre começo o que acaba comigo. sempre questiono uma verdade aberta. sempre acredito na mentira da vespera. sempre ignoro todos os avisos. sempre começo o que acaba comigo. sempre me perco onde me acho perdido. sempre admito o erro escondido. sempre desconsidero o grito dos mitos. sempre nego o que eu mesmo acredito. sempre me engasgo num grito impossível. sempre começo o que acaba comigo.

28.2.08

é hora de me entender

Se disser que não da mais
Será que eu escuto ou só finjo escutar
Se quiser se jogar
Será que eu pulo ou só paro para olhar
Mas não fique assim eu falei demais
Ah, se eu pudesse eu tentaria mudar
Se quiser me acertar
A hora é essa eu não vou revidar

(moptop - moonrock)


bem, março chega e desta vez me recuso a expor o sorriso de minha cicatriz. tiro férias de mim, possivelmente, se tudo der certo, volto em abril. as duas ou três pessoas que carinhosamente me leêm, agradeço e peço paciência. ficarei sem acesso na casa nova, um pouco por vontade própria.

26.2.08

o que doia ficava sempre escondido

Parada na minha frente, um pouco mais transparente que antes, vejo tudo que passou. Cores aberrantes disfarçadas num cuidado em suas palavras não obscurecem seu humor novo. Está melhor que nunca, mas agora de nada adianta ter me alcançado neste meu repouso de ermitão, não acredito mais no convívio apaziguador de exércitos estrangeiros e, a propósito, nem em você. Muito menos em você, nisso continuo como um bebê num berço: o que me escapa aos olhos não existe mais.

Pus sal na ferida, quebrei meu ninho e pintei tudo de negro, agora, por favor, não disfarce cores aberrantes, os tons de vermelho já brilham sem minha permissão. A minha rouquidão é muito mais limpa e clara que água nascente de rio transbordando ódio e calma. Rejeito, aliás, como sempre, os louros de honra ao mérito, entrego-os aos loucos e mendigos no caminho. Nossa! Estão em todos os lugares. Conheço tudo ao seu respeito, não disfarce cores aberrantes: arco-íris mesquinhos também povoaram os meus sonhos secretos.

Não me venha dizer, ainda com um restinho de monóxido de carbono e outras não-sei-quantas-mil-substâncias-tóxicas saindo pela boca, que conhece bem os homens. Traumas familiares e teorias freudianas são proibidos de entrar aqui. Aponto o peito, outrora bateria de escola de samba ao ver-te; “treinado agora”, digo. Forçando os tons pasteis e seu caminho nostálgico ao que éramos, você dirige seus dedos longos e precisos à minha têmpora macia mas tensa. “Você é só um menino”. Esmurro a mesa com a sentença de um juiz terrível: “Isto é tudo”.

22.2.08

há sempre algo ausente...

foi quando consegui te ver medindo a temperatura de onde passava pois os cuidados tinham de ser precisos. quando te observei saber dizer o que eu nem podia. cantarolar baixinho tua melodia preferida de outro tempo. até adivinhar já o que viria de à um minuto ou 10 anos. ainda alí, onde o tempo nem dizia ao que vinha e nem se fazia notar, logo depois de saber o que queria, era para eu ter pressentido, mesmo sabendo que das ciências exatas levamos apenas o benefício da dúvida, que toda aquela hora bonita se transformaria em segundos hostis.

20.2.08

mal nenhum...

Enquanto a chuva cai, ela vai. Parecia que não tinha mundo atrás. Sem ter pra onde voltar. Nunca seria o mesmo, já sabia. Se o céu demonstrasse-se límpido e esclarecedor, eu teria desconfianças pois as tardes acabavam mal e os números eram irracionais. Tudo ruindo. Tudo parecendo querer escapulir, a cabeça sacudindo-se em frangalhos. Desfazendo-se, visão turva, tão confuso. As cores, só podia ser mentira, nem era outono, o que essas folhas fazem pelo chão. Asfalto molhado, negro. Eu descia e fazia as coisas parecerem fazer sentido, trabalho de sísifo demais pra mim, desculpe por não suportar. Enquanto a chuva vinha ela ia. E talvez não tenha sido culpa minha errar.

eu passei daqui. Sempre me assustou a fraqueza da linha. Sempre querendo preservá-la e agora estou em extinção aqui.

17.2.08

para júlio e martha...

Júlio e Martha insistiam com força em forrar com cuidados aquele caminho que me restava trilhar, não sabiam a poderosa sugestão pela qual estava sendo tomado. Poderia assustá-los a calma da minha profunda decisão. Mas foram os trovões liberados por aquela candura infinita dos olhos de Júlio que me deram este momentâneo e, curiosamente, perene desespero de hoje, como um maldito carro que sempre cruza as mesmas esquinas porque sempre existirão esquinas e carros e estes sempre serão as mesmas coisas. Nunca nos levando aonde importa. E onde é isto, que, mesmo se alguém quisesse levar não saberia? Ah! eu juro, levaria tantos quanto pudesse e ainda assim não me livraria de nem um miligrama deste peso que carrego, pois sempre doeria os que não puderam ser levados.


"as despedidas e o suicídio perdem sua dignidade quando repetidos."
jorge luis borges em "história da eternidade".

12.2.08

o lugar ideal pra perder alguém ou para perder-se de si próprio.

como é que eu vou dizer isto? sinto os meus poderes aumentarem...sinto meus poderes aumentarem...estou ardendo, bêbado de um novo vinho. sinto a coragem, o ímpeto de ir ao mundo, de carregar a dor da terra, o prazer da terra, de lutar contra as tempestades, de enfrentar a ira do trovão...enfrentar a ira do trovão. nuvens se ajuntam sobre mim, a lua esconde sua luz, a lâmpada se apaga! a lâmpada se apaga...devo levantar...devo levantar...eu não era nada, e aquilo me bastava. agora não quero mais a parte, eu quero toda a vida.


trecho de "fausto", de goeth, lido por paco, herói trágico do filme "terra estrangeira", de walter salles. meu filme nacional preferido.


6.2.08

via das dúvidas

-lembro do que meu avô falou pra mim enquanto via a mulher de toda sua vida afundar-se em uma cova e segurava escondido na mão o lenço que ela o fizera assim que se encontraram pela primeira vez numa bica d’água que abastecia toda uma região lá de onde moravam num distante ano de 1929: “O amor, filho: Isso um dia ainda vai te matar”. Abaixou-se, beijo-me a testa, e deu as costas pra ela pela última vez. Lembro do olhar do psicanalista ainda hoje quando repito essa frase.

Tão doces as mãos de Duda, fininhos os dedos, longos, elegantes, carinho tão generoso. Acarinhava meus cabelos enquanto ouvia minhas bobagens. Entregava-me prêmios que não caberiam em estantes. Em nada parecia ter julgamento imposto, palavras cuidadosas. Era ferido, era ferida, mas não negava-se as palavras. O resultado era sempre o mesmo: reação carinhosa e diferente. Era o que importava.

E mesmo depois de ter-lhe dito tão pesadamente sobre as costas um trauma de infância compartilhado, ela pegava-me bem perto e me acarinhava. Era definitivamente diferente. Nada nunca mais foi dito sobre isso; e essa foi a única coisa não resolvida entre nós. Sabíamos que carregávamos aquilo, e que se fosse pra ser daquele jeito: “que não seja com você”. Era uma espécie de acordo velado. Por que não fui achar isso uma bobagem antes? É o que chamam apanhar da vida.

30.1.08

A Mistake

Vou cometer um erro
Vou cometer de propósito
Vou desperdiçar meu tempo
Porque estou cheio como um carrapato
E estou flutuando na superfície
E o que eu encontro é meu

E quando o dia se vai e eu olho para trás
E o fato é que eu me diverti, tateando ao redor.
Todo conselho que rejeitei,
e eu corri para onde eles disseram para não correr,
mas onde era certeza eu me divertir, então...
Vou botar pra foder de novo
Fazer outro percurso
Despavimentar meu caminho
E se você quer que faça sentido
Por que está olhando para mim?
Não sou bom em matemática

E quando encontro meu caminho de volta
O fato é que eu posso ficar, ou não.
Adquiri um gosto tal
Por um erro bem feito
Eu quero cometer um erro
Por que não posso cometer um erro?
Estou sempre fazendo o que acho que deveria
Quase sempre fazendo bem a todo mundo
Por quê?
Quero fazer o que é certo? Claro, mas...
Eu realmente quero sentir que sou forçado a responder a você?
Inferno, não!


fiona apple é uma das minhas cinco cantoras preferidas, mas eu a considero uma ótima (e abusada) letrista, poeta mesmo, na minha opinião.
esta música é de seu segundo albúm, "when the pawn..."

28.1.08

investigações para a impossibilidade da justiça e a fadiga intelectual terminal causada pela desilusão

Estava lento, resistindo à correnteza como um herói trágico daqueles que povoavam minha infância. Estava estalando por dentro, me procurando e me perdendo, parecia mesmo que algo estava gravemente quebrado. Era eu. Fratura exposta da vida. Eu tenho um remédio. Eu me automedico por conta própria, a conta é alta. Meus projetos inacabados já se confundem com minha própria personalidade. Eu quero salvar e me recuso a me deixar ser salvo.


20.1.08

to my favourite sullen girl

houve uma garota. ela entrou na sua vida sob
a unha e levantou-a até que ele gritasse,
enquanto docemente exalava carisma.

14.1.08

torrencial

Acelerei na rua, pois da última vez que não fugi da chuva, aprendi o que me era útil. De imediato não lembrava por que corria, mas minhas botas estavam ali, permitindo-me pisar as poças d’água com certo descuido. Estava um pouco tonto, deixara de fumar a algum tempo, mas tudo que queria era um trago.Estava como nunca quis estar: ciente da força que culmina e estraçalha. Sempre fora mais corajoso que a maioria, mas tão estúpido quanto eles. A insegurança a muito me avisava, me acenava, mas agora o charco é imenso.
Foram os gritos de umas cinco crianças brincando na chuva e uma jovem atravessando a rua correndo com seu vestido encharcado que trouxeram de volta o sentido daquela minha confusão, ah, não se tratava de uma jovem bonita, mas a cena deu a ela um certo encanto. Havia uma senhora passando tranqüilamente por mim com um bonito guarda-chuva florido. E eu ali, lembrando que nunca antes havia me permitido observar a beleza impassiva dos guardas-chuva. Estava observando tudo... e tudo passando impiedosamente sobre mim. Havia nascido ali mesmo, à uma hora exatamente. Por que me achava tão esperto? Tão ingênuo?

4.1.08

sobre como conheci júlio...

E então ele atropelava as palavras de pouco sentido para mim e para a situação e sempre, como vírgula, dizia: “sim”, “sim”, “sim”. E ao me ver perplexo, e talvez mesmo querendo isto, continuava mais aceleradamente, e tua boca ia tomando, junto com a fumaça, umas formas curiosas e eu ia me entregando sôfrega e insistentemente à bebida e o seu gesticular parecia querer me conduzir a um estado de entrega e tudo em volta acabava se parecendo demais com o que ele ia dizendo, recebendo uma tonalidade curiosa de música e cada vez mais pessoas pareciam compartilhar daquele meu transe e nada se parecia com a história do mundo e ciente do muro que tombava em mim ele foi devolvendo-me à realidade, diminuindo a velocidade e o ritmo da serpente esfumaçada que lhe saía da boca e devolvendo os tons cinza de nossa cidade (que é nenhuma), aquilo foi como um parto e senti toda a solidão e desespero dos expulsos do útero e lágrimas senti já com alguma vergonha e procurando uma saída honrosa aticei minha gastrite (ou será úlcera?) com um longo gole naquela bebida quente e o correto era eu dar-lhe um corretivo por me fazer em frangalhos na frente de tantos amigos mas apertei a mão com força na sua e falei que aquela não deixava de ser uma experiência literária única e que da próxima vez, ao menos, me auxiliasse no retorno e ele disse sim.

27.12.07

"Os Improváveis"

Acabava de fazer um cálculo para confirmar uma conta do computador, embora nem fosse perfeccionista, gostava de levar um trabalho importante pra frente só com certeza de ter feito corretamente. O telefone toca, atendo enquanto levo o cd ao computador para gravar o trabalho, era Duda, dizendo-me da reunião da banda que seria lá em casa, na qual ela diria que estava dando o fora, e se eu não podia trazer um vinho para tomarmos depois que ela estivesse arrasada. Era curiosa a relação emocional que ela tinha com tudo aquilo, depositara muito de si naquelas letras angustiadas de adolescente sabida. O curioso era que agora não se sentia mais assim. Queria ser aquela garota até o fim, mas querer ser aquela garota já era um esforço que descaracterizava o mérito. Precisava dizer-lhes isso. Na cara. Como aquela garota faria caso crescesse. Não sabia ao certo o que dizer. Sabia que se machucaria e depois ficaria arrasada. Sabia que era inevitável. Os amigos da banda, na verdade apenas próximos como bons amigos deveriam ser, eram os dois rapazes esquisitos e as duas meninas bonitas. Chamavam-se “Os Improváveis”. Ela gostava muito do que chamava de influência sombria do som de Seatle, referindo-se ao som do nirvana misturado com o do Jimi Hendrix, mas que parecia mesmo com um Joy Division mais pesado. Assim que o back up é feito, levanto da minha mesa de trabalho, desço o prédio, ando na rua mais movimentada daquela cidade frenética, nem me reconhecia mais, entro na primeira loja e compro o vinho mais caro que a minha carteira podia comprar.
Já podia sentir seus olhos tristes abaixando enquanto confessava dores insuspeitas para mim, não queria ser abraçada enquanto dissesse, ela dizia que aquilo a continha e que era importante que a correnteza seguisse seu fluxo mais de descontrole que de razão. Expulsava tudo que a incomodasse, aquilo às vezes era uma sinceridade algo desconcertante. Mas acostumara-me à verdade desde cedo. Ela sentia uma espécie de culpa por não mais se sentir sincera com eles da banda. Dizia-me que algo nela mudara, embora não conseguisse ainda determinar, e aquilo que acabara de crescer, ou diminuir nela, agora era incompatível. Sentia-se, na verdade, mais improvável que nunca, era quase impossível.

23.12.07

subterfúgio da memória

Um homem é provocado no meio de outros, ao saber por que não é nenhum dos outros.
Deitado no leito, ao pé de uma mulher que ele ama, esquece que não sabe a razão por que é ele mesmo, em vez do corpo em que toca.
Sofre, sem saber, com a escuridão da inteligência que o impede de gritar que ele mesmo é a mulher já esquecida da presença dele mas excitada no aperto dos seus braços.(...)
Esta mulher inerte e ausente, pendurada nos meus braços sem sonhar, não me é mais estranha do que a porta ou a janela por onde vejo e passo.
Quando adormeço, incapaz de amar aquilo que acontece, recupero a indiferença (que lhe permite deixar-me).
Nos meus braços é impossível que ela saiba quem encontra, pois fabrica, obstinada, um esquecimento total.
Os sistemas planetários a rodar no espaço, como discos cujo centro se desloca a toda velocidade para descrever um círculo infinitamente maior, afastam-se da posição que tinham para regressar a ela quando a rotação acaba.
O movimento é figura do amor, incapaz de estacionar neste ou naquele ser para passar, com rapidez, de um ser a outro.
E o esquecimento que vai condicioná-lo não é mais que subterfúgio da memória.


Georges Bataille. O Ânus Solar