6.2.08

via das dúvidas

-lembro do que meu avô falou pra mim enquanto via a mulher de toda sua vida afundar-se em uma cova e segurava escondido na mão o lenço que ela o fizera assim que se encontraram pela primeira vez numa bica d’água que abastecia toda uma região lá de onde moravam num distante ano de 1929: “O amor, filho: Isso um dia ainda vai te matar”. Abaixou-se, beijo-me a testa, e deu as costas pra ela pela última vez. Lembro do olhar do psicanalista ainda hoje quando repito essa frase.

Tão doces as mãos de Duda, fininhos os dedos, longos, elegantes, carinho tão generoso. Acarinhava meus cabelos enquanto ouvia minhas bobagens. Entregava-me prêmios que não caberiam em estantes. Em nada parecia ter julgamento imposto, palavras cuidadosas. Era ferido, era ferida, mas não negava-se as palavras. O resultado era sempre o mesmo: reação carinhosa e diferente. Era o que importava.

E mesmo depois de ter-lhe dito tão pesadamente sobre as costas um trauma de infância compartilhado, ela pegava-me bem perto e me acarinhava. Era definitivamente diferente. Nada nunca mais foi dito sobre isso; e essa foi a única coisa não resolvida entre nós. Sabíamos que carregávamos aquilo, e que se fosse pra ser daquele jeito: “que não seja com você”. Era uma espécie de acordo velado. Por que não fui achar isso uma bobagem antes? É o que chamam apanhar da vida.

30.1.08

A Mistake

Vou cometer um erro
Vou cometer de propósito
Vou desperdiçar meu tempo
Porque estou cheio como um carrapato
E estou flutuando na superfície
E o que eu encontro é meu

E quando o dia se vai e eu olho para trás
E o fato é que eu me diverti, tateando ao redor.
Todo conselho que rejeitei,
e eu corri para onde eles disseram para não correr,
mas onde era certeza eu me divertir, então...
Vou botar pra foder de novo
Fazer outro percurso
Despavimentar meu caminho
E se você quer que faça sentido
Por que está olhando para mim?
Não sou bom em matemática

E quando encontro meu caminho de volta
O fato é que eu posso ficar, ou não.
Adquiri um gosto tal
Por um erro bem feito
Eu quero cometer um erro
Por que não posso cometer um erro?
Estou sempre fazendo o que acho que deveria
Quase sempre fazendo bem a todo mundo
Por quê?
Quero fazer o que é certo? Claro, mas...
Eu realmente quero sentir que sou forçado a responder a você?
Inferno, não!


fiona apple é uma das minhas cinco cantoras preferidas, mas eu a considero uma ótima (e abusada) letrista, poeta mesmo, na minha opinião.
esta música é de seu segundo albúm, "when the pawn..."

28.1.08

investigações para a impossibilidade da justiça e a fadiga intelectual terminal causada pela desilusão

Estava lento, resistindo à correnteza como um herói trágico daqueles que povoavam minha infância. Estava estalando por dentro, me procurando e me perdendo, parecia mesmo que algo estava gravemente quebrado. Era eu. Fratura exposta da vida. Eu tenho um remédio. Eu me automedico por conta própria, a conta é alta. Meus projetos inacabados já se confundem com minha própria personalidade. Eu quero salvar e me recuso a me deixar ser salvo.


20.1.08

to my favourite sullen girl

houve uma garota. ela entrou na sua vida sob
a unha e levantou-a até que ele gritasse,
enquanto docemente exalava carisma.

14.1.08

torrencial

Acelerei na rua, pois da última vez que não fugi da chuva, aprendi o que me era útil. De imediato não lembrava por que corria, mas minhas botas estavam ali, permitindo-me pisar as poças d’água com certo descuido. Estava um pouco tonto, deixara de fumar a algum tempo, mas tudo que queria era um trago.Estava como nunca quis estar: ciente da força que culmina e estraçalha. Sempre fora mais corajoso que a maioria, mas tão estúpido quanto eles. A insegurança a muito me avisava, me acenava, mas agora o charco é imenso.
Foram os gritos de umas cinco crianças brincando na chuva e uma jovem atravessando a rua correndo com seu vestido encharcado que trouxeram de volta o sentido daquela minha confusão, ah, não se tratava de uma jovem bonita, mas a cena deu a ela um certo encanto. Havia uma senhora passando tranqüilamente por mim com um bonito guarda-chuva florido. E eu ali, lembrando que nunca antes havia me permitido observar a beleza impassiva dos guardas-chuva. Estava observando tudo... e tudo passando impiedosamente sobre mim. Havia nascido ali mesmo, à uma hora exatamente. Por que me achava tão esperto? Tão ingênuo?

4.1.08

sobre como conheci júlio...

E então ele atropelava as palavras de pouco sentido para mim e para a situação e sempre, como vírgula, dizia: “sim”, “sim”, “sim”. E ao me ver perplexo, e talvez mesmo querendo isto, continuava mais aceleradamente, e tua boca ia tomando, junto com a fumaça, umas formas curiosas e eu ia me entregando sôfrega e insistentemente à bebida e o seu gesticular parecia querer me conduzir a um estado de entrega e tudo em volta acabava se parecendo demais com o que ele ia dizendo, recebendo uma tonalidade curiosa de música e cada vez mais pessoas pareciam compartilhar daquele meu transe e nada se parecia com a história do mundo e ciente do muro que tombava em mim ele foi devolvendo-me à realidade, diminuindo a velocidade e o ritmo da serpente esfumaçada que lhe saía da boca e devolvendo os tons cinza de nossa cidade (que é nenhuma), aquilo foi como um parto e senti toda a solidão e desespero dos expulsos do útero e lágrimas senti já com alguma vergonha e procurando uma saída honrosa aticei minha gastrite (ou será úlcera?) com um longo gole naquela bebida quente e o correto era eu dar-lhe um corretivo por me fazer em frangalhos na frente de tantos amigos mas apertei a mão com força na sua e falei que aquela não deixava de ser uma experiência literária única e que da próxima vez, ao menos, me auxiliasse no retorno e ele disse sim.

27.12.07

"Os Improváveis"

Acabava de fazer um cálculo para confirmar uma conta do computador, embora nem fosse perfeccionista, gostava de levar um trabalho importante pra frente só com certeza de ter feito corretamente. O telefone toca, atendo enquanto levo o cd ao computador para gravar o trabalho, era Duda, dizendo-me da reunião da banda que seria lá em casa, na qual ela diria que estava dando o fora, e se eu não podia trazer um vinho para tomarmos depois que ela estivesse arrasada. Era curiosa a relação emocional que ela tinha com tudo aquilo, depositara muito de si naquelas letras angustiadas de adolescente sabida. O curioso era que agora não se sentia mais assim. Queria ser aquela garota até o fim, mas querer ser aquela garota já era um esforço que descaracterizava o mérito. Precisava dizer-lhes isso. Na cara. Como aquela garota faria caso crescesse. Não sabia ao certo o que dizer. Sabia que se machucaria e depois ficaria arrasada. Sabia que era inevitável. Os amigos da banda, na verdade apenas próximos como bons amigos deveriam ser, eram os dois rapazes esquisitos e as duas meninas bonitas. Chamavam-se “Os Improváveis”. Ela gostava muito do que chamava de influência sombria do som de Seatle, referindo-se ao som do nirvana misturado com o do Jimi Hendrix, mas que parecia mesmo com um Joy Division mais pesado. Assim que o back up é feito, levanto da minha mesa de trabalho, desço o prédio, ando na rua mais movimentada daquela cidade frenética, nem me reconhecia mais, entro na primeira loja e compro o vinho mais caro que a minha carteira podia comprar.
Já podia sentir seus olhos tristes abaixando enquanto confessava dores insuspeitas para mim, não queria ser abraçada enquanto dissesse, ela dizia que aquilo a continha e que era importante que a correnteza seguisse seu fluxo mais de descontrole que de razão. Expulsava tudo que a incomodasse, aquilo às vezes era uma sinceridade algo desconcertante. Mas acostumara-me à verdade desde cedo. Ela sentia uma espécie de culpa por não mais se sentir sincera com eles da banda. Dizia-me que algo nela mudara, embora não conseguisse ainda determinar, e aquilo que acabara de crescer, ou diminuir nela, agora era incompatível. Sentia-se, na verdade, mais improvável que nunca, era quase impossível.

23.12.07

subterfúgio da memória

Um homem é provocado no meio de outros, ao saber por que não é nenhum dos outros.
Deitado no leito, ao pé de uma mulher que ele ama, esquece que não sabe a razão por que é ele mesmo, em vez do corpo em que toca.
Sofre, sem saber, com a escuridão da inteligência que o impede de gritar que ele mesmo é a mulher já esquecida da presença dele mas excitada no aperto dos seus braços.(...)
Esta mulher inerte e ausente, pendurada nos meus braços sem sonhar, não me é mais estranha do que a porta ou a janela por onde vejo e passo.
Quando adormeço, incapaz de amar aquilo que acontece, recupero a indiferença (que lhe permite deixar-me).
Nos meus braços é impossível que ela saiba quem encontra, pois fabrica, obstinada, um esquecimento total.
Os sistemas planetários a rodar no espaço, como discos cujo centro se desloca a toda velocidade para descrever um círculo infinitamente maior, afastam-se da posição que tinham para regressar a ela quando a rotação acaba.
O movimento é figura do amor, incapaz de estacionar neste ou naquele ser para passar, com rapidez, de um ser a outro.
E o esquecimento que vai condicioná-lo não é mais que subterfúgio da memória.


Georges Bataille. O Ânus Solar

14.12.07

ouvindo song for the newborn - anthony braxton

o perigo vinha exatamente do domínio que passei a ter da situação, aquela consciência de quem sabe o que está destruindo. o refugo se avolumando atrás e as promessas se desfazendo adiante. o que eu via era o sinal de fumaça indicando a próxima parada, a nova cidade potencial, o novo alimento de um deus às avessas. alimento nenhum saciava minha fome, só me serviria o que não tivesse limites. o rastro de destruição, não posso dizer que me orgulho, mas era uma obra e tanto. fui construindo novas técnicas, encontrando outros meios, formulando diferentes teses. sim, sabia exatamente o que estava fazendo, e num tribunal imaginário, eu era condenado diariamente.

11.12.07

love, you should've come over

Este ar irrespirável ia me tirando a urgência dos meus passos, quanto tempo eles serviram para me levar até você? Poluição visual nenhuma me tira o encanto da beleza de seu rosto, você nunca soube o que te dizia baixinho enquanto dormia. Quantas toneladas de sinceridade iam soterrando o seu sono mais tranqüilo e você a me cobrar mentiras e frases de novelas. Uma muralha agora divide a boa intenção dos atos, eles nunca se encontram. Aquela minha solidão de espécie da qual você sempre reclamava, a minha resistência em banalizar o que eu tinha, tornou-se uma regra intransigente e irreversível. Agora escavo com minhas próprias mãos túneis que me sirvam de saída de mim mesmo e os meus dedos ensangüentados já não resistem à extenuante tarefa.

29.11.07

Packt Like Sardines in a Crushd Tin Box

Depois de anos esperando
Nada veio
Sua vida passa diante de seus olhos
E você deslumbra:

Sou um homem são
Desistam do meu caso

Depois de anos esperando

Depois de anos esperando
Nada veio
Você deslumbra estar olhando, estar olhando do lugar errado

Sou um homem são
Desistam do meu caso



radiohead, Amnesiac

25.11.07

notas dispersas

Então era importante fazer as coisas fazerem sentido. Era importante esperar o álcool perder o efeito para propor uma nova etapa. Era importante atentar para os espaços deixados entre amigos. Era importante toda sorte de oportunidades desperdiçadas. Era importante se comportar como um infiltrado num antro de sonhadores falidos. Importante esperar pelo fim de tudo que não tardava. Há quantas noites respiras tão tranqüilamente? É importante continuar respirando. A conta um dia chega e ninguém sairá ileso.

9.11.07

uroboros

juntei as duas pontas. o que encontrei era o que se escondia.
pioneiro, me chamaram. eu sabia das limitações impostas por aquela liberdade intransitável.
não ter alguém, não querer alguém e não ficar só no que movia noites insones.
muita droga, muita angústia. meu nome às vezes me escapava.
chamavam-me professor. em minha queda, vertiginosa, lagos amontoados de corpos insepultos.
chamei de derrota a vitória mais plausível: não me vender por qualquer ninharia.
anestesiado por dores incontroláveis. meu nome era dor auto imposta.

21.10.07

não estou...

Eu te contei mentiras que convenceriam o papa. Você nunca notou que nunca menti. Você apenas nadou no rio intransitável, braçadas para todos os lados. Sem botes salva vidas, sem botes salva vidas. Você quis demais de mim, nem para todo mal há cura. Eu me contentei em fingir mentir, eu me contentei com uma imensa chuva de fogos. A cachoeira reprimia teus gemidos, a cachoeira nunca foi verdadeiramente minha amiga, sempre quis me namorar. Sem amigos salva vidas, sem amigos salva vidas. Você apenas viu como eu ia e voltava ao inferno com minha guitarra mal tocada, apenas assistia confortavelmente com pipocas em seu sofá. Nunca foi fácil convencer o mundo a ser melhor, nunca foi fácil mentir pra você quando este coração estava em frangalhos. Sem caminhos alternativos de vida ou de morte, estaria melhor em outra, estaria melhor morto. Você andou de um lado para o outro, eu nem sabia que se tratava de uma estratégia de fuga. As portas sempre estiveram abertas, eu nunca menti olhando em seus olhos, esta sempre foi minha maior fraqueza, me desculpe ter dito a verdade.

16.10.07

minha pequena isadora

isadora é nova, carrega no peito dores de outrora. encontrei-a pela primeira vez num
passeio público, a distorcer realidades e encantar tragédias.

longos abraços de isadora, braços de ternura insuspeita, de apocalipses que nunca
aconteceriam. ah, isadora, quantas rainhas destronadas não fostes para mim? tu
nem suspeitas o carinho incontido que carrego nesse peito amargo, o otimismo que
nega minha inteligência sempre que procuro as razões de teu bem querer. minhas rimas
imprecisas que estampam meu mal estar e que cantam tua beleza. ah, isadora, não te
vás assim, tão pequena, que muito mais anárquico que bakunim são os sentimentos, não
se pode galopa-los. não renegue teu colo febril à minha têmpora macia mas tensa. que
daqui a mil anos seremos todos inúteis como agora, e de tábua de salvação eu abro mão
de meu quinhão.

agora mesmo, enquanto me decido pela dúvida, ela sorri com seus olhinhos pra mim.
isadora ainda tem certezas nessa terra desesperada, e tenta me ensinar uma oração.
ah isadora, tu então não sabes? como te explicarei meu ocaso?
deixo pra depois. fatalidades que minha vida tece.

11.10.07

sobre madrugadas e vinganças.

Continuava andando pelas ruas desertas daquela cidade de interior, a madrugada é uma boa conselheira, ou melhor, ouvinte. Era assim desde tempos remotos, perambulava pelas ruas falando baixinho o que me atordoava. A quem notava, parecia um louco, não raro percebia os risos contidos à distância. Nem me importava. Mas essa era uma das razões para preferir as madrugadas e seus segredos. As ruas desertas e seus alaúdes de melancolia desperdiçados. Júlio me dizia: “O que você tem de errado é esse teu desejo, que nem você aceita, de vingança. A vingança é preguiçosa. Sempre deixa pra amanhã o que pode fazer hoje, e dessa forma, vai corroendo a armadura de silêncio”. Sei lá onde esse jeca sem vergonha aprendeu essas coisas, mas sempre me acertava no estômago. Eu sempre o acompanhava no boteco que ficava nos arredores da cidade, perto da roça mesmo, onde os roceiros iam, pra voltar, tarde da noite, não tínhamos outra alternativa que não vir a pé. Isso nos aproximou demais. Ficávamos, naqueles passos tortos, trocando idéias sobre dores supostas e dores verdadeiras, sempre embaralhadas, para que sua saída não fosse dificultada. Ele ria quando falava do meu desejo de voltar pro Rio, quando lhe contava histórias de como eu arruinava tudo que tocava, ele ria, me dizendo algo que Duda sempre falava: “Você se acha pior do que é. E eu não sei se isso é uma virtude ou um defeito”. Eu também não sabia. Não sabia o que queria e o que devia fazer. É sempre difícil encontrar um jeito de negar algo que nos move, é sempre difícil encontrar, principalmente, algo que nos mova. Esse era realmente o problema. Aquele que sequer conseguia admitir a mim mesmo.

21.9.07

chamada.

Era meio estranho quando estava naquele cansaço triste advindo da consciência nítida de que não estava no lugar certo. A cada dia me via mais infeliz. E o que realmente me interessava era o desespero quieto, contido, que as pessoas mal demonstravam. Ficava naquele exercício medonho de contradição explícito: tentando adivinhar-lhes a cor e os sabores de conflitos imaginados. A menina que levou o cão querido ao veterinário sozinha mas encontrou a porta fechada por ser cedo demais, ela batia na porta com a urgência de quem quer colar um vaso quebrado de alguém importante. E o cachorro por estar sem coleira, e talvez por isso mesmo, recusava-se a entrar no carro. O cara do ônibus que entrou, pagou a passagem e sentou no meio como se o fizesse sem pensar. Talvez estivesse ali, um ano após um relacionamento longo com uma garota que amava muito, ainda tentando esquecê-la, torcendo para que a bonita menina nova que acaba de entrar no ônibus desse um novo rumo a sua existência curta mas dolorosa. A colegial esperando o transporte escolar buscá-la na mesma esquina de sempre, no mesmo horário de sempre, mas com a cabeça ocupada demais pensando na merda da menstruação que está atrasada e que, deus a livre, não queria nem pensar nisso, já pensou se estiver grávida? Tensão no pé batendo no chão e com a saia ameaçando levantar por conta daquela ventania que ela sabia querer trazer mudanças definitivas. O desgraçado do Alex que se recusa a usar a camisinha. A pequena Daiane fazendo dezesseis anos mas pensando apenas em como os 15 foram ótimos e o quanto vai ser difícil manter o ritmo. Não conseguira dormir a noite toda pensando nisso, e também na surpresa que ela adivinhava que iriam fazê-la por causa do murmurinho que acompanhou, fingindo não perceber, a semana toda.

Era meio estranho aquele cansaço triste, a turma à sua frente esperando ele começar mais uma daquelas exposições orais que, por mais que achassem chato, respeitavam e até admiravam. Era estranho por que olhava os rostos à sua frente, e eram muitos, e ficava naquele exercício medonho que ele chamava de contradição explícito. Perguntavam-lhe coisas desconexas sobre a vida e ele se reconhecia como porta voz de coisas que seus alunos não queriam saber, não queriam viver, mas queriam negar, o que era um bom começo.

Não reconhecia em si mesmo aquela postura ordeira que agora representava, lutava contra isso, esforçando-se para não negar a essência e a semente de desacato que trazia consigo desde tempos imemoriais. Queria ser o contato da desordem no outro lado, queria fazer-se entender. Sua intenção era valiosa. Não sou um ordeiro, não sou um ordeiro: era o tipo de coisa que passava em sua cabeça naquele cansaço triste.

-Este vento...

Interrompeu o silêncio, a turma olhando-o.

-...vai mudar a vida de uma menina...é um vento de mudança. Quando ele venta, sonhos caem no chão mesmo não estando maduros. E se as portas estiverem fechadas; este vento arromba. Obrigando o comando e o desacato a jantarem juntos na mesma mesa. E ainda por cima exige bons modos.

A turma, que não entendeu nem o que disse e nem sua razão, não deixou de perceber que um brilho diferente nos olhos lhe traia aquela serenidade que o professor sempre demonstrara até ali. Comportaram-se, numa espécie de acordo unânime, como nunca fizeram antes. Então o professor busca algo automático para se segurar e disfarçar aquela corrente que não se sabia onde ia dar:

-Ana.

-presente.

-Bianca.

-presente.

-Carlos...

19.9.07

fast as i can

quando me toquei, estava seguindo um velho conselho que me deram: finja ser corajoso, mesmo que você não seja, ninguém nota a diferença. o problema estava em que fingi tão bem que realmente passei a não temer quase nada, e este era um problema muito maior. eu me lembro de como os dias passavam. e para só dizer a verdade foi um pulo. de repente eu era um mentiroso, pois estava com muita coragem e às vezes tinha que fingi que sentia medo. a máscara, meu caro, quando pega na cara e não quer mais largar é foda. mas aí fui me tocando o quanto perdia por não evitar perder. os dias foram ficando problemáticos também, me fazendo compania em um assombro que não valia a pena. despi-me da máscara a bem pouco tempo, as pessoas mal se tocaram, assustei-me com a situação. não mais controlava o que era, e o pior, como os outros achavam que era. deixem-me correr por um instante, não fará mal.

12.9.07

eu continuo sendo meu maior problema

numa cidade morna é muito difícil se abrir com estranhos, mas eles estão por toda parte. não se conhece ninguém mais. cada qual fazendo seu próprio discurso ensaiado. mentindo de antemão pra si mesmo. quando se acorda num dia mais quente, com alma já morna, comemorando alguma data ou ocasião dita especial; é que notas que já está fazendo o mesmo há tanto tempo sem perceber. a armadilha te pegou antes de engatilhá-la no local mais apropriado, e te arrancou a mão num movimento violento. quem é mesmo a vítima, tu te perguntas. de que é feita essa pele precária que resiste a tua presença? fui eu, ao acaso, que despertei a fúria desse destino?

10.9.07

o pretérito mais que perfeito

na primeira vez que viajei com o fidel, um pra dois anos na época, tinha acabado de começar a andar e pronunciar algumas coisas incompreensíveis, levei ele e a silvinha na última praia do rio de janeiro. ia ser a primeira vez que os dois veriam o mar e sua força de ir e vir. mas tinha também um riozinho bem fraquinho que vinha da cachoeira e desaguava no mar, nele, enquanto eu e silvinha o segurávamos um de cada lado na demonstração mais paternal possível que ele podia confiar em nós, fazíamos um casal muito bonito, eu e a silvinha, bem novos, ainda inexperientes mas sabidos, fidel atravessa o riozinho e sente o frio e o fluxo contínuo que já existia antes dele e continuaria depois, sempre. a correnteza de um rio nunca acaba; num virtuosíssimo exemplo de otimismo que o fidel parecia, na sua sabedoria de saber a ciência da natureza, aprender naquele momento que eu e a silvinha o carregávamos tão protetores e orgulhosos.