4.1.09

Penélope tocia e botava a mão na boca
Definitivamente não estava acostumada a fumar
O drink que carregava era violeta e
prometia te deixar igual ao Bóris Iéltsin

A banda tocava muito alto
todo aquele problema com a rapaziada mais nova
e seus cabelos pareciam pegar fogo
e suas roupas pareciam não se importar
tinham xingamentos cravados na carne
não era nem uma reação
era um mundo novo

Quando o balé russo começou
devo admitir
minha paciência já tava fudida
e minhas idéias misturadas
juntei forças apenas pra me levantar
e lançar um vai pra puta que pariu
à distância

os rapazes pensaram ouvir uma reprovação pública
a sua algazarra patrocinada pelos pais
e iniciaram uma desproporcional revanche
depois de bater na parede do bar onde fechava a conta
e derrubar uma garrafa de cachaça
uma guitarra stratocaster
apagou meu baseado
não sei explicar ao certo
simplesmente minha nuca arrepiou

Penélope agora estava como Stalin
Apontando criminosamente em minha direção
E um exército impúbere prometia me espatifar
No chão sagrado de um boteco sujo

Do fundo do bar, coçando o saco e vomitando asneiras e indecências
O velho Magnus aparece com o cão Cérbero
E com o seu riso provocador diz que já rodou o mundo inteiro
E não vai ser aqui que vai deixar silenciar um coração deserdado

2.1.09

Ela desviou o olhar, era assim sempre que estava com os dentes apertados
Eu abaixei, da última vez tive que desviar de objetos voadores
Até que Evelin entrou com uma cumbuca na mão pedindo esmola
E gritando: eu acredito na maximização dos lucros.
Arrancando aplausos de uma extirpe bem particular de gente

Só deu tempo de coçar a cabeça e ter que apagar Ítalo, seu irmão mais novo,
Com um soco no meio de sua fuça
Ela e Evelin tiveram ganas de quebrar conjunturas astrais
E me jogar para o limbo de onde estavam acostumadas
Ei, ei, calma aí, mocinhas, a vida às vezes simplesmente não te deixa em paz
Eu disse
No que elas concordaram positivamente abanando as cabeças
Então, pera lá, que diabos você está fazendo com a camisa do Che Guevara?
Cutucou-me Evelin, de saco cheio, quer dizer, vazio, por que ninguém
Dera-lhe moedas perdidas nos bolsos das calças

Pro inferno com sua guitarra mal tocada, estou cansada de você
Os dentes apertados e desviando o olhar e plantando minas terrestres
Em terrenos baldios de subúrbios

Eu desisto, eu desisto, eu disse, enquanto apenas via à distância
Evelin contando trocados pra mais uma dose de crédito avulso
Ela esfrega as moedas pelo corpo e sente arrepios lhe correr a espinha
Apenas eu acho isso um espetáculo deplorável

Devia ser aniversário de alguém, aquela porra que estavam cantando
Era parabéns pra você
Eu não posso atrapalhar uma festa de aniversário, eu pensei comigo
Cochichei em seu ouvido, eu nunca mais olharei em seus olhos
E joguei uma moedinha com toda minha força em direção à Evelin
Eu na esperança de lhe acertar em cheio e ela pega a moeda no ar
E acena agradecidamente
Eu sou mesmo um desastre, eu penso desanimado
Meu amor, agora longe, apenas dissimula uma ou duas lágrimas ocasionais
De repente, o trafego envolve a todos como um castigo divino
E a chuva ondula sons que eu jamais esquecerei

1.1.09

Esperava, esperava, me desesperava
Quem me reconheceu me olhou nos olhos
Serpentes endiabradas rondando meus gestos
Você me venderia a guitarra de kurt cobain
Mas não me mataria mais

Na mão esquerda, oferecendo uma enésima parte de oferenda alheia,
Desce sua mãe e os da sua extirpe,
Lado a lado, perfeita simetria

Eu sempre amei a matemática e nunca fui de me levar a sério
O que me levava a não querer nada e me dar bem com tudo
Ta vendo, algo que se consegue entender;
Matemática.

seu pai antes de morrer fez questão de me maldizer para os vizinhos
ele nunca se importou, foram suas últimas palavras
mas porra, ele sequer conseguia distinguir monk de ellington
eu já estava cansado por demais de espremer entre os dedos
os gomos de vida enlatada

fiz a coisa errada, posso sentir você dizendo pelo telefone
que se foda, se quer ouvir desaforo e pagar por isso ligue a tv
a pedra verde pode trazer felicidade
e um carro melhor pode te levar pro topo

ah, sim, você vai rasgar sua própria carne
em busca de alguma verdade

17.9.08

duas da manhã

As duas da manhã, Isadora era a única que conseguiu supor meus limites e o cansaço de alguém desistindo de segurar o peso do mundo sobre as frágeis costas. Mas ela me apresentava uma alternativa ao descaso, estupidez e incompreensão humanas. Ela era o farol que iluminava a rota dos barcos perdidos, sem rumo e à deriva. Ela era uma faroleira inexata das rotas constantes. Viver era a única constante. A vida era a única coisa que não se podia descuidar.
As duas da manhã ela me abraça com suas pernas de entregas incondicionais, eu repetia seu nome para ter certeza que ela existia. Isadora. Isadora. Pra onde você vai? Se ao menos tanta coisa que vivia na cidade não evaporasse assim, tão sem indícios, agora que estou diante dela nesta cama improvisada, poderia até cogitar voltar a viver como vivia. Todas as drogas, ausência de limites, bebidas e amores poderiam levar homens bons à ruína, mas nunca a voracidade e o hedonismo envergonhado dos habitantes da cidade conseguiram transpor as barreiras de minha dignidade genética. A força que carregava do mundo anterior ainda brilhava suas tímidas e moribundas chamas em mim. Isadora era única pessoa daquele Império das Possibilidades que parecia acompanhar meus cacoetes de mundos perdidos.
As duas da manhã a pergunto quantas rainhas destronadas já foste. Ela sabia do que falava. Eu sabia do que ela aprendeu. Ela ajeita-se, apenas uma menina, nua, sob a fuligem daquela máquina divina que produz o amor e seus derivados. Eu era apenas um menino, cansado de ver o mundo fazer o que quisesse da humanidade, sem resistências, sem obstáculos, que espetáculo triste de se ver. E a vida sempre sendo tão doce quando surgia frágil e desamparada por entre os muros de segurança e antenas da Cidade Sem Sol.
As duas horas da manhã eu soube que a vida passa depressa demais, e que qualquer dia é um bom dia para morrer dependendo do que você faz. Era tão difícil garimpar esses ouros pelos asfaltos gastos e calçadas surradas, poeira esfumaçada, tudo tão estático e automático, desta cidade vampira.
A boca de Isadora tem gosto de verdade e entrega, seus seios eram minha terra prometida, olhos que me aprisionavam num complexo jogo de atenção e entendimento, sexo de paraíso definitivo. Nada neste mundo era mais bonito que seu rosto quando estava gozando.

1.8.08

de certa forma ela adivinhava como agir comigo; calma, transparência e o melhor de tudo, inexatidão. ia retirando suavemente camadas e camadas de passados remotos, exatamente como restauradora de imagens antigas. e daí se o que fosse perdido fosse para sempre? tinha-a alí, debruçada sobre mim, calculando sem cuidado equações imaginárias, sorvendo sofregamente meus juizos secretos e impróprios, limitando o alcance da razão, pondo fogo em minhas têmporas e em meu peito. deslizando lentamente seu mel em doses diárias, rejeitando minhas virtudes atrasadas, querendo apenas aquele riso fugido, sem ordem. meu sono precário a embalava, turbante de silêncios coloridos, e saber não se sabia quem era o último a ceder.
a grama verde substituiu o chão de vidros picados, o céu de chumbo abriu-se em suaves marteladas.

13.7.08

isadora

Preocupava Isadora minha delicadeza espartana, eu era direto e dócil, uma brusca busca por caminhos próprios. Ela acarinhava meus cabelos desgrenhados dizendo que poderia ser belo caso quisesse, puro se deixassem e bruto se necessário. Ela via por entre os olhos da máscara, me nudificava e me tornava elementar. Ela mesma, Isadora como eu a chamava, suplicante como ela queria, percorria todos os caminhos possíveis para se certificar dos errados. Deliciava-se com a penumbra em meu olhar quando, anestesiado por seus caridosos entorpecentes, tombava em seu colo nu e febril e não dizia nada além de “você, Isadora, cuidado com meu coração”. Tinha a força de um mantra as poucas palavras que dizia. Força maior, mais criativa e destruidora, tinha o meu silêncio e o entendimento que ele trazia. “Abaixo a verborragia”, era o nosso brinde usual antes de iniciarmos nosso ritual particular de auto destruição, música e amor. Isadora tinha meu coração entre os dedos, e nunca viver foi tão perigoso.
Era uma estrada sem mão definida, as colisões eram freqüentes e espantosas. Escorria pelas mãos mal estar, exatidão e marcas deveras definitivas. Ela era a rainha de minhas vírgulas, dispondo-as ao seu bel prazer, sem nenhuma ordem, consideração ou astúcia. Isso amava em Isadora, tua força e nobreza, só sabia o que não queria e me elogiava ao me atribuir, pelo menos isso, sentido. Não como marionete, não isso, mas como a um personagem secundário que se ama demais para se aceitar sua sina. Isadora era minha autora e por isso eu permitia, como um personagem absolutamente impotente, teu poder sobre mim.

28.6.08

O amor nascia de luzes apagadas, era quase dia e nada importava.

Era o herdeiro de um tesouro muito antigo. A história entranhara-se em mim. Eu era a história da cidade, aquela que todos queriam esquecer pois doía saber. Meus passos desvendavam os mistérios dos abismos insondáveis, meus olhares se lançavam para longe, para onde os olhares se escondem, minhas palavras publicavam verdades ao vento. A Cidade Sem Sol não gosta de ter seus segredos violados. E mesmo quando procurar é o antídoto contra o vazio suposto, a decepção pode ser maior que o cansaço. Do horizonte da Sombra encarnada enxergava-se apenas o vazio suposto de uma ausência de sol. O maior dos astros. E de todos os lados, as ruínas do mundo se entulhavam. A Cidade Sem Sol era, vejam bem, a última fronteira da humanidade partilhada. Mas a cidade conhecia o amor, dessas infelizes coincidências que não se pode chamar de outro nome que não ironia. Desmanchava-me aos pés de Leonora. O amor era uma herança ancestral, eu o havia herdado.
A amor acomete como uma doença faz. Entorpece, fere e acalma. Até a estranha simetria das torres, com a ousadia de dedos humanos apontando para deus, levavam-me a um grau mais incontido de entrega a Leonora. Não havia razão que regrasse, que pusesse termos, que auxiliasse no precário retorno a casa. Era sempre o lar dos sem lares, a cidade sem sol dos solares.

23.6.08

cidade sem sol

No limite seguro da Cidade Sem Sol era onde Isadora morava. Era meu abastecedor. Minha entidade mantedora, minha madre superiora. Ensinava-me de amor mais que todas as outras pessoas juntas. Era simplesmente uma bruxa ou algo assim. Ela me olhava e eu fazia o que quisesse. Seus ritos de amores e drogas. Suas bebidas exóticas, sua dança suntuosa, seus gestos incalculáveis. Seus lábios de labirintos abertos. Era a coisa mais honesta que vivi em toda minha vida. Nem uma palavra prometida. Poucas palavras trocadas. Éramos duas pessoas cientes do fim do mundo próximo, cientes que não seríamos da turma dos escolhidos. Nos divertiríamos até no inferno, talvez. A casa de Isadora pertencia a muitos. O perigo apenas desfila modestamente como uma foto inofensiva em uma cômoda. Perigo era viver. Viver sem passar pela coisas, sem tê-las experimentado. Já era tenebroso todo aquele ritual orgiástico ao deus grana, vender até a capacidade de sonhar, para poder transformar os sonhos em sonhos de consumo. Eles dão preços aos sonhos aqui na Cidade Sem Sol. Nunca vi lugar tão perigoso para viver.

27.5.08

eu pretendi me proteger o tempo todo.
tu fez minha cabeça mas despedaçou meu coração.
quantas vezes te pedi para ter cuidado com o que tinha entre os dedos.
nunca seria uma jóia, seria sempre meu coração.
sempre tive medo de quando percebesse o quanto pensava em você com o meu coração. sempre souberam o quão tolo eu sempre fui.
mas em minha cabeça o certo se configurava, era um processo difícil.
estava muito ocupado tentando continuar a tentar entender o mundo.
tinha de conhecê-lo bem quanto pudesse. tentando continuar vivo pra você.
as recompensas não caberiam em lembranças.
você ia deixando de gostar de mim à medida que eu melhorava.
não podia entender aquilo.
e as mãos sempre dadas começaram a se esfriar com a distância vislumbrada.
sempre soube que tudo que eu fazia era por você.
nada existia para além dos limites seus.

14.5.08

Eu semeio utopias num mundo desesperado
Meu coração tem ficado cheio como um navio náufrago
Desesperados acenos e a incerteza da salvação
Nem mesmo posso supor se as pequenas sementes de utopia
Florescerão e vingarão essa sede de qualquer beleza humana
Epístolas de sentimentos nobres e já gastos de guardados

Eu semeio utopias em um mundo bastante desesperado
Bastante desesperança
Desesperador
Algo em mim parece desaparecer no final da tarde
Preciso me recompor
Preciso me recompor
E todos os aguardados símbolos emergem como bolhas do fundo do mar
Mal piscam e desaparecem
E nem os anos, talvez, poderão dizer se algo contou de importante
Em todas aquelas bóias lançadas aos sobreviventes
É fato conhecido: o navio hora afunda

O semear não pode ser automático. É um erro.
O semear não pode ser automático, uma vez que ser um é, essencialmente,
Negar o outro, automático não pode ser o semear
O tempo passa diferente. Antes mesmo de sabotarmos nossa capacidade de
Ter nosso próprio tempo em troca de um punhado de excessos recém convertidos
À condição de necessidades
E as sementes talvez nunca reivindiquem a condição de herdeiras
Uma vez que a herança pode não ter valor em um mundo que tem preço
E talvez nem um bocado de fé possa fazer bem

Eu semeio utopias num mundo fudido
E talvez seja mesmo culpa minha insistir em continuar
Essa utopia semeada meio em vão é a única coisa que me deixa dormir à noite,
Diante de tantos fantasmas reais que rondam a vida de qualquer um em qualquer
Instante da vida por que exatamente isto caracteriza viver.
Estar exposto à vida. À tudo que tem na vida. Principalmente em um mundo como
O nosso

E na medida em que tudo em volta parece acomodar-se muito bem na realidade
Me preocupo cada vez mais com minha própria condição
Sou forte e teimoso demais pra me entregar, mesmo que seja na iminência da derrota
Eu continuo semeando utopias numa terra desesperada
E enquanto tudo em volta parece ruir
Me esforço para ser um ponto onde se possa segurar
Sei que não desintegrarei
Por que só existe a possibilidade do florescimento
Enquanto se insistir em semear

26.4.08

thiago versus cotidiano

Entrada confusa, parece estar se dirigindo ao lugar errado, é isso que sente. Tem realmente o que ensinar e isso envolve uma crítica pesada demais ao estilo de vida levado por todos. Nem todos, pensa pra si mesmo, gostariam ou estariam preparados para um visão mais larga das coisas. A complexidade aumentou ao um grau tão imenso de aleatoriedade que parece não ter mais sentido nenhum, e o pior, todos estão se deixando ser levados. Sem focos de resistência, sem brigadas vermelhas. O socialismo era ao menos um termômetro, variava a o valor mas tínhamos ali um parâmetro. Eu sinceramente não sei como as coisas chegaram a esse ponto. Não saberia explicar.
A sala o olha. Era dado a esses acessos meio incompreensíveis. Ficava um pouco perdido. Duda chamava de “pequena ausência”, os alunos, de esquisitice mesmo.

-por favor, abram o caderno, livro ou qualquer outra dessas coisas que vocês escrevem, e listem cinco heróis nacionais.
-como assim, professor?
-papel, caneta e você. Você pensa em cinco pessoas dessas importantes que aprendemos os nomes e as datas de mortes ou coisa que o valha quando somos crianças ou nem tão criança assim. Sacou?
-e depois? Tem sempre um depois, né?
-você é mesmo muito esperto, Carlos. Depois, encarecidamente, escrevam o que souberem sobre esses caras e o por quê de vocês considerarem-nos heróis. Beleza? Parece difícil? Vocês estarão fazendo um grande favor pra mim.
-ainda não entendi, professor.

Do fundo da sala, a pequena e zarolha e espertíssima Martha, com suas sardas pulando da face como peixes naquelas pororocas amazônicas, levanta o dedo e uma postura levemente arrogante para uma pequena tão desprivilegiada de arrogância.

-tudo bem, Martha. Na realidade é um trabalho um pouco difícil e ninguém está querendo assumir isso de cara. Mas vamos pensar só um pouco sobre isso juntos. Ok?

Martha balança a cabeça afirmativamente. Dizia que odiava a matéria para manter a fama de má, de rebelde adolescente, mas sabia toda a matéria e era a melhor aluna da classe, o que invariavelmente era negado em suas avaliações. Auto sabotadora das boas.

-bem. Quando fui criança... Engraçado que durante muito tempo na minha infância nunca parei pra pensar que talvez os meus professores também tenham tido infância, mas este é um outro papo. Quando fui criança, tive contato com alguns cavalheiros e nobres senhoras que eram chamados de heróis nacionais. Figuras tão importantes que tiveram seus nomes inseridos nos livros com os quais nos educavam. Alguém pode citar pelo menos um desses cavalheiros que acabo de me referir?
-Tiradentes.
-boa, Otto. E alguém sabe o nome de alguma mulher dessas?
-aquela da lei dos escravos...
-aquela princesa?
-isso mesmo.
-esqueci do nome. Poderia me lembrar, Marcos?
-Princesa Isabel.
-isso. Até aqui alguma dificuldade?

A turma parece consentir. Alguns pegam o caderno, outros levantam o olhar concentrado a algum ponto inexplorado da sala. O professor senta-se e continua o fluxo de pensamento que o trouxera tão confuso à sala de aula. Parece que recompôs o foco. Dar aula dá-lhe foco. Parece algo que ele se sente importante fazendo. Talvez a única coisa.
Martha, do fundo da sala, pergunta qual a explicação pro Brasil não ter nem um herói recente. Atropela a pergunta com a frase: “e teu, professor? Diga o nome de um herói teu?”. O professor explica que aquela resposta dele exigiria uma explicação que ela ainda não estava pronta para entender e se ela se importa em ter apenas um nome quando isso na verdade poderia não significar nada. Ela diz que não se importa. “talvez eu já tenha ouvido falar”. O professor sente-se culpado por tê-la subestimado tão sumariamente e diz:

-Fidel.
-de onde ele é?
-De Cuba. Um barbudão fardado.
-pensei já ter ouvido você falar algo sobre pessoas fardadas e não terem sido comentários bons.
-Martha. Você é muito mais inteligente do que suspeita. Sim. Não costumo fazer muitos comentários elogiosos a pessoas fardadas. Nós chamamos isso que eu acabei de fazer, e só você notou, de incoerência. Quando dizemos uma coisa e nos comportamos ou fazemos de outro modo. Sabe um buraco numa estrada. Essa incoerência tá mais para um buraco negro. Mas como disse antes, pra te explicar isso precisaria de mais tempo do que realmente disponho hoje. Se por acaso você quiser saber algo mais sobre isso, faça uma pequena pesquisa, me entregue, e este será o seu trabalho do bimestre. Eu com certeza adorarei conversar contigo sobre esse tema em outra ocasião se você ainda quiser.
-tá.

Achava incrível a capacidade deles de encerrarem pensamentos em frases tão curtas quanto “tá”. Mas era um desafio que deveria enfrentar sem fazer julgamentos precipitados.

-hoje não tem explicação?

Pergunta o figura da sala, Nilo, muito tamanho em pouca concentração de movimentos. Resultado era que atropelava os outros, falava alto, esbarrava nas cadeiras quando passava, era o mostro do Doutor Frankestein, pobrezinho, monstrualizado pelos próximos. Era também chegado a fazer comentários constrangedores envolvendo mulheres em shorts curtos, sobre violência e algumas outras coisas incategorizáveis.

-não tem... não tem explicação.

15.4.08

sempre começo o que acaba comigo

sempre mudo para aquilo que eu já era. sempre procuro abrigos no meio de uma área deserta. sempre corro perigos dos quais não preciso. sempre começo o que acaba comigo. sempre questiono uma verdade aberta. sempre acredito na mentira da vespera. sempre ignoro todos os avisos. sempre começo o que acaba comigo. sempre me perco onde me acho perdido. sempre admito o erro escondido. sempre desconsidero o grito dos mitos. sempre nego o que eu mesmo acredito. sempre me engasgo num grito impossível. sempre começo o que acaba comigo.

28.2.08

é hora de me entender

Se disser que não da mais
Será que eu escuto ou só finjo escutar
Se quiser se jogar
Será que eu pulo ou só paro para olhar
Mas não fique assim eu falei demais
Ah, se eu pudesse eu tentaria mudar
Se quiser me acertar
A hora é essa eu não vou revidar

(moptop - moonrock)


bem, março chega e desta vez me recuso a expor o sorriso de minha cicatriz. tiro férias de mim, possivelmente, se tudo der certo, volto em abril. as duas ou três pessoas que carinhosamente me leêm, agradeço e peço paciência. ficarei sem acesso na casa nova, um pouco por vontade própria.

26.2.08

o que doia ficava sempre escondido

Parada na minha frente, um pouco mais transparente que antes, vejo tudo que passou. Cores aberrantes disfarçadas num cuidado em suas palavras não obscurecem seu humor novo. Está melhor que nunca, mas agora de nada adianta ter me alcançado neste meu repouso de ermitão, não acredito mais no convívio apaziguador de exércitos estrangeiros e, a propósito, nem em você. Muito menos em você, nisso continuo como um bebê num berço: o que me escapa aos olhos não existe mais.

Pus sal na ferida, quebrei meu ninho e pintei tudo de negro, agora, por favor, não disfarce cores aberrantes, os tons de vermelho já brilham sem minha permissão. A minha rouquidão é muito mais limpa e clara que água nascente de rio transbordando ódio e calma. Rejeito, aliás, como sempre, os louros de honra ao mérito, entrego-os aos loucos e mendigos no caminho. Nossa! Estão em todos os lugares. Conheço tudo ao seu respeito, não disfarce cores aberrantes: arco-íris mesquinhos também povoaram os meus sonhos secretos.

Não me venha dizer, ainda com um restinho de monóxido de carbono e outras não-sei-quantas-mil-substâncias-tóxicas saindo pela boca, que conhece bem os homens. Traumas familiares e teorias freudianas são proibidos de entrar aqui. Aponto o peito, outrora bateria de escola de samba ao ver-te; “treinado agora”, digo. Forçando os tons pasteis e seu caminho nostálgico ao que éramos, você dirige seus dedos longos e precisos à minha têmpora macia mas tensa. “Você é só um menino”. Esmurro a mesa com a sentença de um juiz terrível: “Isto é tudo”.

22.2.08

há sempre algo ausente...

foi quando consegui te ver medindo a temperatura de onde passava pois os cuidados tinham de ser precisos. quando te observei saber dizer o que eu nem podia. cantarolar baixinho tua melodia preferida de outro tempo. até adivinhar já o que viria de à um minuto ou 10 anos. ainda alí, onde o tempo nem dizia ao que vinha e nem se fazia notar, logo depois de saber o que queria, era para eu ter pressentido, mesmo sabendo que das ciências exatas levamos apenas o benefício da dúvida, que toda aquela hora bonita se transformaria em segundos hostis.

20.2.08

mal nenhum...

Enquanto a chuva cai, ela vai. Parecia que não tinha mundo atrás. Sem ter pra onde voltar. Nunca seria o mesmo, já sabia. Se o céu demonstrasse-se límpido e esclarecedor, eu teria desconfianças pois as tardes acabavam mal e os números eram irracionais. Tudo ruindo. Tudo parecendo querer escapulir, a cabeça sacudindo-se em frangalhos. Desfazendo-se, visão turva, tão confuso. As cores, só podia ser mentira, nem era outono, o que essas folhas fazem pelo chão. Asfalto molhado, negro. Eu descia e fazia as coisas parecerem fazer sentido, trabalho de sísifo demais pra mim, desculpe por não suportar. Enquanto a chuva vinha ela ia. E talvez não tenha sido culpa minha errar.

eu passei daqui. Sempre me assustou a fraqueza da linha. Sempre querendo preservá-la e agora estou em extinção aqui.

17.2.08

para júlio e martha...

Júlio e Martha insistiam com força em forrar com cuidados aquele caminho que me restava trilhar, não sabiam a poderosa sugestão pela qual estava sendo tomado. Poderia assustá-los a calma da minha profunda decisão. Mas foram os trovões liberados por aquela candura infinita dos olhos de Júlio que me deram este momentâneo e, curiosamente, perene desespero de hoje, como um maldito carro que sempre cruza as mesmas esquinas porque sempre existirão esquinas e carros e estes sempre serão as mesmas coisas. Nunca nos levando aonde importa. E onde é isto, que, mesmo se alguém quisesse levar não saberia? Ah! eu juro, levaria tantos quanto pudesse e ainda assim não me livraria de nem um miligrama deste peso que carrego, pois sempre doeria os que não puderam ser levados.


"as despedidas e o suicídio perdem sua dignidade quando repetidos."
jorge luis borges em "história da eternidade".

12.2.08

o lugar ideal pra perder alguém ou para perder-se de si próprio.

como é que eu vou dizer isto? sinto os meus poderes aumentarem...sinto meus poderes aumentarem...estou ardendo, bêbado de um novo vinho. sinto a coragem, o ímpeto de ir ao mundo, de carregar a dor da terra, o prazer da terra, de lutar contra as tempestades, de enfrentar a ira do trovão...enfrentar a ira do trovão. nuvens se ajuntam sobre mim, a lua esconde sua luz, a lâmpada se apaga! a lâmpada se apaga...devo levantar...devo levantar...eu não era nada, e aquilo me bastava. agora não quero mais a parte, eu quero toda a vida.


trecho de "fausto", de goeth, lido por paco, herói trágico do filme "terra estrangeira", de walter salles. meu filme nacional preferido.


6.2.08

via das dúvidas

-lembro do que meu avô falou pra mim enquanto via a mulher de toda sua vida afundar-se em uma cova e segurava escondido na mão o lenço que ela o fizera assim que se encontraram pela primeira vez numa bica d’água que abastecia toda uma região lá de onde moravam num distante ano de 1929: “O amor, filho: Isso um dia ainda vai te matar”. Abaixou-se, beijo-me a testa, e deu as costas pra ela pela última vez. Lembro do olhar do psicanalista ainda hoje quando repito essa frase.

Tão doces as mãos de Duda, fininhos os dedos, longos, elegantes, carinho tão generoso. Acarinhava meus cabelos enquanto ouvia minhas bobagens. Entregava-me prêmios que não caberiam em estantes. Em nada parecia ter julgamento imposto, palavras cuidadosas. Era ferido, era ferida, mas não negava-se as palavras. O resultado era sempre o mesmo: reação carinhosa e diferente. Era o que importava.

E mesmo depois de ter-lhe dito tão pesadamente sobre as costas um trauma de infância compartilhado, ela pegava-me bem perto e me acarinhava. Era definitivamente diferente. Nada nunca mais foi dito sobre isso; e essa foi a única coisa não resolvida entre nós. Sabíamos que carregávamos aquilo, e que se fosse pra ser daquele jeito: “que não seja com você”. Era uma espécie de acordo velado. Por que não fui achar isso uma bobagem antes? É o que chamam apanhar da vida.

30.1.08

A Mistake

Vou cometer um erro
Vou cometer de propósito
Vou desperdiçar meu tempo
Porque estou cheio como um carrapato
E estou flutuando na superfície
E o que eu encontro é meu

E quando o dia se vai e eu olho para trás
E o fato é que eu me diverti, tateando ao redor.
Todo conselho que rejeitei,
e eu corri para onde eles disseram para não correr,
mas onde era certeza eu me divertir, então...
Vou botar pra foder de novo
Fazer outro percurso
Despavimentar meu caminho
E se você quer que faça sentido
Por que está olhando para mim?
Não sou bom em matemática

E quando encontro meu caminho de volta
O fato é que eu posso ficar, ou não.
Adquiri um gosto tal
Por um erro bem feito
Eu quero cometer um erro
Por que não posso cometer um erro?
Estou sempre fazendo o que acho que deveria
Quase sempre fazendo bem a todo mundo
Por quê?
Quero fazer o que é certo? Claro, mas...
Eu realmente quero sentir que sou forçado a responder a você?
Inferno, não!


fiona apple é uma das minhas cinco cantoras preferidas, mas eu a considero uma ótima (e abusada) letrista, poeta mesmo, na minha opinião.
esta música é de seu segundo albúm, "when the pawn..."